quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Mudança de endereço.


Mudei de morada: http://camilavasconcelos.wordpress.com/

Passado (não) vivido.

Foto: Camila Vasconcelos, Versalhes.
Trata-se de uma pequena cômoda, uma pequena paixão, um pequeno objeto causador da saudade do que nunca vivi. Perdoem-me os fotógrafos, percebo completamente as imperfeições de perspectiva, dentre outras, mas esta é a minha foto, a minha cômoda, a minha mesinha do Palácio de Versalhes. Quando criança, em meus livros de história este era o lugar que mais me chamava atenção: o Palácio de Versalhes. O grande palácio que eu nem imaginava que um dia poderia conhecer. Sim, a possibilidade de viajar não era algo que passava por meus pensamentos, nem ao menos para ter como obstáculos finanças familiares ou qualquer disponibilidade de tempo: apenas não era uma realidade, ou algo "pensável", "cogitável", "imaginável". Era apenas o meu livro de história. E o Palácio. Bem, devo dizer que eu não era, verdadeiramente, afeita aos livros de história. Preguiça de ler, talvez. Preguiça. Uma preguiça que se contradizia à minha vontade de conhecer. Entretanto apaixonavam-me, de algum modo. Hoje, sou apaixonada por eles. Pelos livros. E antes mesmo de os abrir. Continuo um pouco preguiçosa. Na verdade, sempre à espera da paixão. Que por vezes vem com enorme audácia. Tenho, inclusive, livros que nunca abri. A felicidade e a paixão quase que se exauriram nos momentos em que os comprei (em sebos são sempre mais divertidos) e, agora, preciso aguardar por mais um novo momento de paixão para abri-los, por mais um novo momento de enorme vontade e curiosidade de descobrir o que trazem em suas palavras, parágrafos, e páginas com cheiro ou cor de velhas. Sem isto a leitura parece-me sem graça. De fato os textos precisam cativar, de alguma maneira, o leitor. Preocupo-me com os meus textos, que na verdade são ainda apenas ensaios de quem pretende, um dia, escrever de verdade. A cômoda... Parecia que guardava segredos que eu queria conhecer, que guardava um passado curioso. Pensei... Quem terá esta chave? E logo senti vontade de reproduzir esta cômoda para mim, mandar fazer uma daquelas chaves antigas, e aguardar para que o tempo também "gastasse" os cantos da, agora minha, comodasinha e da, só assim minha, chave. Seria a minha chave. Egoistamente minha. O meu roubo de um passado que não vivi. Construiria, provavelmente, o meu. Iria querer mesmo tudo: as flores em rosa, o pezinho de ferro, a fechadura... E a chave. Seria uma chave em ferro, escura, fria, um pouco pesada, um pouco leve. A guardaria só comigo. E teria, ali, fotos de viagens e objetos que me fizessem lembrar, sempre, que o mundo é grande demais para que apenas possa eu assistir à imaginação perante os, não por isso desinteressantes, livros de história. Permitam-me, a vida e o bolso, conhecer tudo o quanto puder, na medida em que me for, pausadamente, objeto de paixão.

Comentários.

Fonte: www.dedodegente.com.br

Sem o leitor as letras nada dizem... Congelam-se no tempo, inutilmente.

sábado, 13 de novembro de 2010

Os Mandus no Carnaval*


No dia anterior, ao final da tarde, quando a feirinha no Mercado Municipal já vendia seus últimos produtos do dia, o comentário da cidade era que na madrugada da manhã seguinte iriam sair os Mandus. Os primeiros raios de sol começavam a raiar quando os fogos anunciaram a saída dos Mandus. E lá vinham eles, às 5h da madrugada, vestidos de preto com um cabo de vassoura amarrado no quadril, e um cesto na cabeça encoberto por lençóis brancos que disfarçavam a identidade dos homens e meninos que mantinham a cultura do local, com diversão ao som da batucada. Era um ritmo pausado, e entre tambores e bumbos se ouvia em seguida o som que os Mandus traziam, ao gritar “Pariu!”.

Dizem que o Mandu é uma manifestação popular folclórica, que vem dos escravos. Como a eles era proibido brincar no Carnaval, a solução era, disfarçados, saírem pelas ruas na madrugada ao som dos seus ritmos. Parece que há cinco tipos de manifestações do Mandu pelo Brasil, uma delas sendo em Maraú, município da Bahia.

Na medida em que o povo passava acompanhando os Mandus, a história tomava seu rumo, para nos explicar aquele grito de “pariu!” que ritmava com os tambores, e é essa a história: uma mulher grávida, logo ao dar à luz a um menino atoleimado e de cabeça grande, viu que ele já saiu dançando e pulando pelas ruas para brincar o Carnaval. Era o Mandu, a coisa feia, que ao ser visto pelo povo, dizia “Ih! Pariu!”.

Durante a caminhada, eles faziam sons com conchas. Veja o video.

Essa parede vermelha que aparece no video é da Igreja Matriz de São Sebastião, padroeiro da cidade. Nesta igreja os escravos eram proibidos de entrar. Observe que as pessoas da cidade acordaram para ver os Mandus passarem. Umas ficaram nas janelas, outras vinham para as ruas para acompanhá-los. Vi também que alguns homens “tocavam” (como se toca boi) alguns meninos vestidos de Mandu e a eles davam ordens, como se eles fossem mesmo escravos. 

*Texto publicado originalmente pela autora no site de jornalismo À Queima Roupa.